‘Nova internet’ permitirá a internauta conectar bilhões de dispositivos

05-09-2010 04:01

Protocolo IPv6 resolve problema de escassez de endereços.
Equipamentos domésticos ainda carecem de suporte.

A internet sofre de um problema grave: cada computador precisa de um endereço IP para se conectar e esses endereços estão acabando. Isso significa que em breve – algumas previsões são para o início do ano que vem – não existam mais endereços para que novos provedores ou usuários sejam conectados à rede. O protocolo que vai eliminar o problema da escassez de endereços vai também resolver outras questões de bastidores de rede e, como consequência, cada internauta receberá bilhões de endereços fixos e reais de internet – o número é maior que o da internet inteira hoje, e grande demais para listar aqui.

Site IPv6.br foi criado especialmente para informar
usuários e provedores sobre o novo protocolo.
(Foto: Reprodução)

Antônio Marcos Moreiras é coordenador de projetos no Centro de Estudos e Pesquisas em Tecnologias de Redes e Operações, que é ligado ao Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br). Segundo ele, apenas 220 milhões (5,4%) dos endereços de IP disponíveis globalmente hoje – o chamado IPv4 – estão disponíveis. Todos os outros já estão alocados para redes corporativas ou provedores de internet.

A previsão é a de que o estoque mundial se esgote até o início do ano que vem. No entanto, reservas locais ainda podem garantir um fôlego extra para a rede IPv4 – a Iana (Autoridade de Números Atribuídos na Internet, na sigla em inglês) é responsável por distribuir endereços globalmente, mas organizações localizadas, como o Lacnic (Registro de Endereços na Internet para América Latina e Caribe, da América Latina, em inglês), e o NIC.br (Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR), do Brasil, possuem endereços que não foram redistribuídos. Moreiras diz que é difícil estimar, mas é possível que as reservas brasileiras sustentem um ou até dois anos de crescimento da internet nacional depois que o estoque geral acabar.

O IPv6 foi criado em 1998 quando já se previa que os endereços IPv4 não demorariam a acabar, apesar de soluções como Network Address Translation (NAT) que permitiram o uso de endereços repetidos pelas chamadas redes internas, usadas em empresas ou redes domésticas. Com isso, muitos IPs puderam ser reutilizados por computadores que não se comunicam diretamente.

Esse cenário será bem diferente no IPv6. “Não existe NAT no IPv6”, de acordo com Moreiras. Espera-se que os aplicativos operem com o pressuposto de que todos os computadores conectados à internet são acessíveis diretamente, sem roteadores ou outros computadores agindo como ponte. Todos os IPs alocados no IPv6 são fixos – hoje, IPs são dinâmicos para “reciclar” endereços que não estejam em uso.

A quantidade absurda de endereços disponíveis no IPv6 permite que milhões de endereços sejam alocados para cada assinante de serviços de internet. Para cada usuário doméstico são 256 redes com quatro bilhões ao quadrado de endereços cada. Empresas terão 65.000 redes – com os mesmos quatro bilhões ao quadrado de endereços cada. Isso não foi intencional. Essa quantidade está relacionada com um recurso que busca facilitar a vida de administradores de redes.

“Não é questão do número de endereços. Existe um esquema de autoconfiguração de endereçamento no IPv6 que acaba reservando esse número de endereços para que o IP seja atribuído de forma automática. Não é esperado que usuário coloque tudo isso na rede”, explica Moreira.

O número de quatro bilhões ao quadrado não poderá ser usado na configuração automática. Além de a infraestrutura de rede simplesmente não suportar tantos dispositivos, existe uma limitação com base no número identificador físico das placas de rede, o Media Access Control (MAC). Isso significa que muitos endereços serão desperdiçados e equipamentos podem acabar gerando conflitos se conectados dentro de uma mesma rede se realmente alguém tentar usar todos os endereços disponíveis. Mas até usuários domésticos terão a possibilidade de usar 256 “subrredes” – em cada uma delas, é possível ter equipamentos que, quando conectados na mesma rede, gerariam conflitos. Mesmo se apenas um dispositivo fosse conectado em cada rede, ainda seriam 256 dispositivos conectados.

Empresas receberão uma rede com a possibilidade de criar 65 mil subrredes, permitindo a segregação entre filiais, departamentos, seções, hierarquias, entre outros.

Brasil é o país com mais endereços IPv6 na
América Latina, mas é também o país com
mais endereços IPv4. (Foto: Reprodução)

Além da configuração, o desenvolvimento de aplicativos fica mais fácil. Programas como o Skype precisam usar “truques” para permitir que computadores conectados de forma indireta à internet consigam se “falar”.

Rede doméstica e segurança são incógnitas
Muito esforço tem sido dedicado ao treinamento de profissionais de provedores para preparem suas redes para o IPv6. O diretor técnico da LACNIC, Arturo Servin, informa que a organização tem um projeto chamado “IPv6 Tour” que já treinou 5 mil profissionais de rede na América Latina. A LACNIC é a responsável por distribuir IPs na América Latina e no Caribe.

Mas, apesar da data do esgotamento dos IPs estar se aproximando, equipamentos domésticos como roteadores e modems ADSL não estão preparados para receber endereços IPv6. Segundo o engenheiro de vendas da Linksys Diogo Superbi, a empresa não sabe se uma atualização de software (firmware) será suficiente para fazer os equipamentos funcionarem ou se uma troca de hardware completa (chipset) será necessária.

O engenheiro diz que os usuários não procuram o suporte a IPv6 como diferencial, embora equipamentos sem suporte poderão, em breve, se tornarem obsoletos – os equipamentos domésticos da empresa ainda não estão prontos para o IPv6. “O que o consumidor hoje leva em conta é o velocidade do Wi-Fi e o alcance do produto. A maioria dos consumidores não tem conhecimento IP, nem v4 nem v6”, explica. Para ele, a transição para IPv6 precisa ser transparente e motivada pelas novas possibilidades que o internauta terá, como a possibilidade de conectar uma câmera diretamente à internet.

“O jargão técnico é algo de redes corporativas”, diz o engenheiro da Linksys.

Outra dificuldade está na falta de posicionamento das operadoras sobre como vai ser o acesso IPv6. Superbi afirma que a Linksys começará a avaliar o IPv6 no momento que houver um movimento por parte delas para trazer IPv6 ao mercado de consumo.

A segurança é outra preocupação corrente. Atualmente, os roteadores domésticos usam a tecnologia NAT para impedir que conexões diretas da internet cheguem à rede interna, sem interferir na navegação do computador, o que dá mais segurança aos usuários, protegendo computadores contra ataques. O IPv6 tem como um de seus objetivos acabar com isso.

“Eu como usuário não quero deixar todos os meus computadores ligados diretamente na Internet”, afirma o engenheiro da Linksys. “Você vai ter as proteções. As pessoas não vão poder deixar seu micro aberto”, diz. O engenheiro não sabe ainda, no entanto, como essa segurança vai acontecer – apenas que elas precisam ser fáceis de configurar, de modo a não causar incômodo ao usuário.

Embora sistemas operacionais de computadores estejam prontos para lidar com IPv6, o mesmo não pode ser dito sobre os sistemas de impressoras, consoles de videogame e outros equipamentos que hoje possuem acesso à rede. Segundo Servin, da LACNIC, “a comunidade está trabalhando para garantir a conectividade de equipamentos com suporte a apenas IPv4”.

Adoção está lenta e usuários podem precisar trocar equipamentos

A maior parte dos equipamentos domésticos
não têm suporte a IPv6 e podem necessitar
de substituição. (Foto: Divulgação)

O Brasil possui cerca de 700 redes autônomas. Uma rede autônoma é normalmente um provedor de internet, empresa ou organização de grande porte, como uma universidade. Dessas 700, 140 já solicitaram endereços IPv6, o que significa que estão em testes ou em processo de implantação. Apenas alguns poucos provedores estão com suporte a IPv6 para usuários finais – nenhum deles de grande porte.

Mesmo assim, o Brasil detém 44% de todos os endereços IPv6 alocados para a América Latina. O país está se movimentando na mesma velocidade que o resto do mundo - o que, para especialistas, ainda é lenta.

A adoção ocorre como resposta ao iminente esgotamento. “[A adoção] tem ganhado força, principalmente a partir de 2008. A gente tem feito um trabalho de divulgação muito forte, inclusive oferecendo treinamentos gratuitamente no NIC.br. Parte do movimento nacional é resultado do nosso esforço aqui, e parte é pela proximidade do esgotamento. O pessoal está vendo que se não implementar é possível que em alguns anos eles estejam fora do mercado, é uma questão de sobrevivência”, explica Moreiras.

Os equipamentos de rede de grandes corporações já suportam IPv6. O problema maior é com mão de obra. Moreiras cita um dado que aponta que 70% dos custos dos provedores para a migração do IPv6 serão com mão de obra. E mais: o IPv6 não substitui o IPv4 – as duas redes continuam funcionando ao mesmo tempo, quase que dobrando o trabalho de configuração de rede.

Embora seja a sobrevivência no mercado o principal motivador para a implantação do IPv6, há também a possibilidade de novos recursos, tanto para empresas como usuários. “O dia que chegar, será ótimo, porque abre possibilidades. Isso vai ser muito legal. Você poderia escolher ter uma câmera, ter um IP de verdade, remoto, aberta”, comenta Diogo Superbi, da Linksys.

Mas a indefinição segue e, talvez, usuários tenham que trocar equipamentos. "Fala-se muito, se lê, comenta, é fato. Mas ainda não há por parte das operadoras uma sinalização de que serão feitas as [adequações da rede para IPv6] . Quando houver uma sinalização, aí sim quem sabe o chipset [do modem ou roteador doméstico] suporte, ou não, e aí você vai ter que, talvez, trocar”, explica Superbi.

Fonte: G1.com.br

 

 

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